“Não tenho mais o Boca Le Piane, mas, se você quiser permanecer nos vinhos do território, sugiro que prove outro grande vinho: Ghemme dos irmãos Ioppa”.
Nunca tinha provado um Ghemme que me entusiasmasse, mas Francesco, proprietário do ótimo restaurante “Schiaccianoci”, jamais me sugerira um vinho meia boca.
Como de costume Francesco abriu a garrafa e me serviu o vinho em taças (acabei levando o que sobrou na garrafa e quase implorei para Francesco finalmente me ceder uma).
A garrafa comprada foi aberta, como sempre, em Chiavari e degustada, às cega, pelos meus amigos e sommeliers no Piccolo Ristorante.
A surpresa foi total e todos ficaram pasmos.
O Ghemme é uma daquelas denominações, do norte do Piemonte, que desde sempre agradam, mas não entusiasmam.
Os produtores de Ghemme, Fara, Boca, Sizzano, Lessona, Gattinara, Bramaterra, vinhos produzidos basicamente com Nebbiolo, ficaram parados no tempo encolhendo suas áreas vinícolas e esperando, talvez, uma luz divina.
A luz não veio...
Alguns produtores arregaçaram as mangas, se modernizaram e começaram a mostrar seus produtos em feiras, eventos, degustações etc.
Resultados: Gattinara, Boca e Lessona, lideres desta “revolução”, são vinhos que já alcançaram os mais altos degraus no cenário vinícola europeu.
O Ghemme, com seus 50 hectares de vinhas separadas apenas pelo rio Sesia das parreiras de Gattinara, parece ter embarcado neste barco da renovação que navegas pelas colinas das províncias de Novara, Vercelli e Biella.
O belíssimo Ghemme Bricco Balsina 2004, produzido pela vinícola Ioppa, dos irmãos Gianpiero que e Giorgio, em Romagnano Sesia, revela uma cor rubi com reflexos alaranjados, aroma de violetas e rosas e na boca se apresenta seco, harmônico, aveludado e com um final muito longo.
O Bricco Balsina vinificado com 85% de uva Nebbiolo e 15% de uva Vespolina, repousa por 24 meses em tonéis de carvalho e afina, por mais 12 meses, na garrafa.
A vinícola Ioppa produz vinhos desde 1852 e alcança, com seus Ghemme Bricco Balsina e Ghemme Santa Fe, um patamar elevado no panorama vinícola Italiano.
Entusiasmado, com o Bricco Balsina 2004, antes de voltar para o Brasil, retornei ao “Schiaccianoci” para tentar comprar, pelo menos, duas garrafas para aumentar o peso plúmbeo de minha mala.
Francesco, quase mortificado, me respondeu que não tinha nem uma garrafa para me atender no jantar e que na vinícola o estoque acabara.
A qualidade do vinho me havia impressionado de tal forma que resolvi pesquisar na internet.
Aleluia!!!!
A enoteca “Tre Archi”, na vizinha Oleggio, publicava, em sua página na net, ser a distribuidora da vinícola Ioppa para toda a Itália.
Na manhã seguinte, bem cedo, ao entrar na “Tre Archi” quase caí de costas: como podia existir uma enoteca tão completa, tão sofisticada e com aquela imensa variedade de etiquetas à beira de uma estrada no meio do quase nada...
A “Tre Archi” é um verdadeiro paraíso para os enófilos que procuram o ótimo.
Grandes vinhos franceses, italianos, alemães...
Etiquetas raras, preços convidativos e um bom atendimento, me “obrigaram”, além das garrafas de Ghemme Bricco Balsina e Santa Fe, a entulhar minha mala com algumas etiquetas francesas de Corton Charlemagne e Chablis Gran Cru.
Quando retorno ao Brasil deixo meu carro em Arona e quando volto o encontro lavado no pátio do hotel do meu amigo Pietro que, gentil como poucos, se encarrega de deixá-lo pronto para minhas aventuras.
Esta rotina se repete há muitos e muitos anos.
Demorei pelo menos 15 anos para descobri o Ghemme Ioppa e a enoteca “Tre Archi”.
Esta minha “cegueira” é reveladora e humildemente devo admitir que desconheço ainda muito deste território (de Arona até Oleggio são menos de 20 quilômetros).
Para os eno-patridiota, que acreditam serem razoáveis R$ 190 por um Nebbiolo Carraro ou Battu, comunico que o Bricco Balsina 2004 me custou Euro 24 (R$ 54).
Se futuramente estes eno-patriodiotas tiverem a oportunidade de provar este Ghemme perceberão que porcaria produzem os eno-vigários do sul.