“Amanhã vou até Termeno para conhecer a vinícola Hofstatter”.
Mal acabara de revelar meu roteiro e Enzo De Gasperi, proprietário do Johnson & Dipoli, com um sorriso malicioso respondeu: “Termeno? Você vai sair correndo meia hora depois. Termeno é a aldeia mais racista da região e quem não fala alemão é olhado com desprezo e desconfiança”.
Com ar descrente continuei: “Não acredito... você está exagerando”
“Exagerando? Pergunte ao meu amigo Marco”
O amigo do Enzo um, italiano de meia idade, alto e magro, que estava tomando um café, não se fez de rogado e respondeu “Quando era mais novo , na década de 70 , eu e um açougueiro (Marco pronunciou um nome, que agora não lembro mais), que era um armário e fortíssimo, íamos aos bailes de Termeno, chegávamos falando em alemão, mas no meio da festa mudávamos para o italiano: Era briga na certa. Nos íamos lá para brigar. Hoje tudo mudou e eles não brigam mais, mas basta falar em italiano que eles fecham a cara ou respondem em alemão”.
A conversa continuou e perguntei o que poderia mudar tanto assim se Egna distava, em linha reta, apenas seis quilômetros de Terlano.
“Aqui há 50% de sobrenomes italianos e 50% de alemães, lá 90% são alemães” emendou De Gasperi.
Achei que havia um pouco de exagero por parte dos dois e, no dia seguinte, peguei meu carro, com placa de Milão, dirigi até Termeno e estacionei na praça central da aldeia.
Ao descer do veículo notei quatro mulheres, que fumavam na porta de um bar, olhando para a placa do carro e , quando entrei para tomar um café ,no mesmo bar, ao ouvirem meu italiano, todos baixaram a cabeça.
Timidez, pensei.
“Bitte?”.
“Um caffè, prego”
A pergunta em alemão e a resposta em italiano foram suficientes para que a mulher rechonchuda e baixinha, atrás do balcão, não me dirigisse mais a palavra.
Juro que me senti tão à vontade como se tivesse entrado, por engano, num banheiro feminino.
Ainda bem que a guerra acabou e os campos de concentração, também.
Pensei nas palavras do Enzo e o quanto me gozaria logo mais à noite.
Sem perder mais tempo percorri os 50 metros que separavam o bar da vinícola e apertei a campainha.
Uma loira com lábios duros e finos falou algo em alemão e eu respondi em italiano que queria comprar algumas garrafas de Pinot Noir.
O italiano da mulher era pior do que o meu inglês...
Tentei inutilmente obter alguma informação, mas foi em vão: a Valquíria estava mais gélida que a moça gripada da Costaripa.
Com três garrafas numa sacola, voltei para o carro, dei um “até nunca mais” para Termeno e seus gentis e acolhedores moradores e segui em frente.
A região é muito bonita, as vinhas perfeitas, o s vinhos, especialmente brancos, bons, as aldeias muito bem organizadas e limpas, mas a arrogância e a frieza e o desprezo dos altoatesinos, da margem direita do rio Adige, são insuportáveis.
Confesso que em nenhum lugar já percorrido - foram muitos- me senti tão discriminado.
Muito tarde, já quase em Egna, lembrei que, talvez, deveria ter falado em português. Quem sabe...
OS VINHOS
Provavelmente a garrafa de Pinot Noir da enoteca De Filla era excepcional ou nos estávamos, em final de noite, não muito rigorosos.
Digo “provavelmente, pois as duas compradas na vinícola em Termeno não me provocaram o mesmo entusiasmo.
Um bom vinho, sem dúvida, bem feito, lembrando os franceses, mas falta ainda alguma coisa... É quase como os franceses.
Aproveitando minha passagem por Termeno provei o Gewurztraminer local.
Bom vinho, muito floral (rosas) e com a indisfarçável presença da lichia... Quase tão bom quanto um Alsaciano.
Não poderia deixar de falar, por ultimo, do Riesling da vinícola Hofstatter.
O Riesling da Hofstatter tem uma bela cor palha, aromas finos e persistentes e um bom equilíbrio... É quase tão bom quanto um irmão do Reno .
Um Pinot Noir quase tão bom quanto os da Borgonha.
Um Gewurztraminer quase tão bom quanto os da Alsácia.
Um Riesling quase tão bom quanto os da Mosela.
Resumindo: A Hofstatter produz vinhos “Quase”
Os preços, porém, não são nada "quase" e, seguido a filosofia “Foradori” (são primos), um Pinot Noir San Urbano exige belíssimos 45 Euros para ser degustado.
Por esta quantia consigo beber um Corton Grand Cru Louis Latour que “É”, e não “QUASE”, um grande Pinot Noir.
Bacco