Faz alguns anos que, seguindo indicação de Bacco, estive em Triora e , assim como ele , além de fascinado pelo território, a culinária chamou muito minha atenção - escargots em primeiríssimo lugar.
Quando li em um comentário da Isabel para fornecermos a receita não acreditei fosse uma tarefa possível.
Onde encontrar tantos caramujos em suas cascas?
Qual o custo final da receita?
É preciso lembrar que as porções servidas nos restaurantes da aldeia lígure são muito generosas, a “lumaca” usada na receita é de uma variedade típica da região, pequena e encontrada naturalmente nos campos.
As confecções, que podem ser encontradas em Brasília, além de caríssimas sao acondiocionadas em tubos com, no máximo, uma dúzia de exemplares.
Passeando pelo Carrefour encontrei quatro latas de escargots e, apesar do preço salgado, comprei para poder fotografar a receita - que acabei nao fotografando.
Confesso que não precisaria cozinhar os escargots, pois desde a infância este molusco faz parte de minha dieta.
Para clarear um pouco as mentes dos meus ferozes críticos, que sempre perguntam como posso criticar restaurantes se não entendo nada de gastronomia, sou obrigado a revelar parte de minha infância.
No início da década de 50 vivi, durante longos anos, com meus avôs na Itália enquanto meus pais vagavam, pelo mundo do após guerra, procurando um canto para viver e esquecer as perdas sofridas nos terríveis anos 40.
Meus avôs eram proprietários do melhor bar-restaurante da cidade e enquanto minha avó cuidava da cozinha, o velho tocava o bar com meus tios, eu observava e aprendia.
Mas tinha minhas tarefas obrigatórias, obrigatórias, mas prazerosas...
Além de pescar rãs nos arrozais, que cercavam a cidade, após aquelas típicas chuva de verão minha avó me mandava para os campos à procura de lumache.
Com o passar dos anos me tornei, logicamente, um exímio pescador de rãs e um especialista na caça dos moluscos.
Quando retornava com as sacolas repletas de lumache, minha avó as deixava alguns dias sem comida e purgando em uma caixa de madeira.
Após este período de quarentena as lumache já estavam com intestinos limpos e era chegada a hora de cozinhá-las.
As receitas dos restaurantes de Triora são praticamente iguais àquelas da minha avó a única diferença reside na quantidade de pimenta – as de Triora são mais picantes- e poderia reconhecê-las sempre e em qualquer lugar.
Lumache allaTriora e Nonna Maria
Ingredientes:
2 latas de escargots
3 tomates bem maduros (se encontrar tomate cereja troque)
Alho, salsinha, azeite, sal pimenta
½ taça de vinho branco seco
Usando os caramujos em lata não é necessário todo o processo de purgação e as lumache já estão pré-cozidas.
Abra a lata e retire os caramujos sem o líquido de conservação e reserve.
Em uma frigideira de bordas altas coloque um pouco de azeite e frite dois dentes de alhos picados finamente.
Quando o alho começar a dourar adicione as escargots e misture bem para incorporar o gosto.
Despeje o vinho, deixe evaporar adicione os tomates picados (se forem cereja, esmague) misture bem, controle o sal a pimenta e, no final do cozimento (3-4 minutos) jogue a salsinha picada.
Sirva com fatias de pão italiano ou polenta.
Se optar pela polenta, faça um círculo com a mesma e coloque as lumache no meio.
Vinho?
Em Triora sempre optei por um Rossese di Dolceacqua ou um bom Pigato.
Aqui ? Um branco bem estruturado vai bem.
Bocca